20 fevereiro, 2008

VELHAS PREOCUPAÇÕES.

Poluição do meio aquático pelos esgotos industriais e urbanos.

Como é sabido , os peixes são extremamente sensíveis à poluição do seu meio vital , só vivendo em águas mais ou menos puras e arejadas . O que se sabe acêrca das suas exigências respiratórias e da sua invulgar susceptibilidade orgânica é o bastante para se abranger a vera latitude do perigo que para a fauna piscícola do Ave representa a evacuação , sem prévio tratamento , dos mais variados esgotos industriais e urbanos , assim como permite fazer uma ideia das funestas consequências de algumas práticas rotineiras , nomeadamente a maceraçâo do linho e a lavagem dos utensílios empregados na sulfatagem das vinhas.
A projecção de semelhante estado de coisas não pode deixar de ser deveras alarmante e de se traduzir num agravamento progressivo das condições biológicas do rio , não só pela maior ou menor toxicidade das substâncias residuais que ele recebe , mas também porque a oxidação ulterior das matérias orgânicas presentes nalguns esgotos , consome o oxigénio de que os seres aquáticos carecem para viver .
É fácil portanto inferir destas considerações que não será possível suster o despovoamento do Rio Ave sem resolver de maneira satisfatória o momentoso problema do seu saneamento . Para o conseguirmos , dada a inutilidade do esforço catequético até hoje despendido , não vemos outro meio susceptível de oferecer certas probalidades de êxito que não seja a reforma imediata da legislação aquícola , pelo menos na parte respeitante à repressão dos delitos , pois é a ineficácia da sua estrutura jurídica , à moderação ilógica das suas penas que se deve atribuir o desaforo com que entre nós se atenta contra a normalidade biológica das águas . Dessa forma pôr-se-ia à disposição das autoridades competentes os meios necessários para evitar a completa ruína da nossa piscicultura , embora sem deixar de ter presente a conveniência de acautelar , tanto quanto possível , os legítimos interesses da indústria e dos municípios , concedendo-lhes para a depuração dos repectivos esgotos todas as facilidades compatíveis com o interesse geral . Aliás não nos custa admitir perfilhando a opinião de Weigelt , que a indústria tem mais valor para a humanidade do que o peixe de água doce e por isso um centavo de despesa que se lhe imponha sem absoluta necessidade , é um roubo que pode afectar gravemente a economia do País . O que está em jogo porém não é a primazia económica de qualquer dos sectores ; é sim a indispensabilidade de fixar o âmbito das suas esferas jurisdicionais , condicionando os sus direitos e os seus deveres recíprocos , de maneira a impedir que os seus interesses colidam e se prejudiquem . Como é óbvio , o nosso desideratum não consiste em coartar os privilégios da indústria , criando dificuldades à sua expansão e desenvolvimento . O que se pretende é que ela não abuse da sua força e lese deliberadamente a piscicultura , só porque se julga dispensada de depurar as suas águas residuais . É isso que se deseja e é por isso que , a bem da Colectividade , se há-de conseguir um dia , quando se conceder ao estatuto das águas interiores a eficiência de que hoje carece.
JOAQUIM SOEIRO.
Club Fluvial Vilacondense - 1949 .

2 comentários:

Anónimo disse...

Pelo magnífico texto que o Engº
Joaquim Soeiro escreveu há mais de cinco décadas, era sua opinião de
que deveria haver um equilíbrio
entre os interesses industriais e
os piscículas do Rio Ave.
-Como è sabido, depois de anos e anos de promessas para despoluição
do Ave, lá vieram os ditos fundos da UE, os quais teriam sido distribuídos pelas indústrias conforme as normas estabelecidas.
-Acontece porém, que o que estará
a acontecer, è que os senhores
industriais, em vez de tratarem das
àguas antes de as devolverem ao rio, tratam-nas quando as captam, antes de as utilizarem nas suas indústrias, lançando-as depois ao rio de qualquer maneira.
Por certo, não serão todos, mas os
que assim procedem, são demais.
a)Cereja

Anónimo disse...

Quando há dias Mario Soares visitou a Nau, para filmar parte de
um documentário que está a fazer para a TV, perguntou a alguém, onde estavam os barcos; se só eram aqueles poucos de fibra que estavam ali.
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AVC